Se não está pegando ninguém, você é frígida; se só transa com seu parceiro, você é chata; se está dormindo com outros caras, continua sendo uma vadia.

Tem duas perguntas que hoje me recuso a responder: 1. quantas aulas de autoescola tive de fazer; e 2. com quantos caras já transei. Em se tratando de dirigir, vamos dizer que aprendo devagar. No entanto, falando de sexo, prefiro não fazer as contas.

Primeiro, fazer uma lista não faz sentido lógico. Como posso reduzir um namorado de muitos anos a outro nome da lista ao lado de um erro de julgamento de quem nem lembro a cara? E meu primeiro amor, Alessandro, o irmão mais velho da minha amiga por correspondência, que me levou para passear de scooter pela costa da Sicília quando eu tinha 15 anos? Ele mexeu com a minha cabeça adolescente e nunca vou esquecê-lo, mas não transamos. Ele não conta?

Fora isso, mesmo se tivesse um número vago na cabeça, eu sempre diria um número menor – e, segundo estudos, não sou a única. Uma pesquisa do Instituto Francês de Opinião Pública descobriu que, em média, os franceses dizem que tiveram 9,9 parceiros sexuais (13,1 para homens e 6,9 para mulheres). E, mesmo que esse número varie dependendo da classe social e da idade das pessoas entrevistadas (jovens urbanos, por exemplo, estão bem acima da média nacional), os resultados mostram um tema em comum: homens sempre contam que tiveram mais parceiras sexuais que as mulheres.

No Reino Unido, uma pesquisa do jornal estudantil The Tab mostrou um padrão similar. Cerca de 20% das mulheres entrevistadas baixavam o número de parceiros que diziam ter tido; nos homens, esse índice ficou em 10%. Em contraste, apenas 5% das estudantes admitiam aumentar seu número, comparado com 12% dos homens.

Olha, não sou o Edward Snowden do sexo. Não quero obrigar as mulheres a listar seus amantes numa atualização do Facebook amanhã de manhã sem falta. Digo sim para a vida privada, digo sim para segredos, digo sim para o mistério. Entretanto, não consigo deixar de pensar: do que diabos as mulheres heterossexuais francesas têm medo?

Segundo François Kraus, do Instituto Francês de Opinião Pública, é o mesmo problema de sempre: “Mesmo que as coisas estejam mudando hoje em todas as classes sociais, a crença continua sendo a de que um homem que teve muitas parceiras sexuais tem mais valor que uma mulher que teve muitos parceiros”.

Então ainda vivemos num mundo Don Juan versus Belle de Jour? Sim. E é ainda pior que isso. Se não está pegando ninguém, você é frígida; se só transa com seu parceiro, você é chata; se está dormindo com outros caras, continua sendo uma vadia.

Mina falou que “só transou com oito caras”, mas que tem vergonha disso. “Quero me divertir, ser liberada”, ela frisa, “porém é difícil”. Émilie – como eu – prefere não contar. “Você pode escrever 20 se quiser”, ela ri. Ela diz que tem medo de que seus amigos a julguem, embora eu não consiga deixar de pensar que tem mais coisa aí. “Se eu contar, sério, são muitos”, ela insistiu. “Isso me assusta. Pode parecer idiota, mas sempre imaginei que, depois que terminasse os estudos, eu passaria o resto da vida com o mesmo homem. Na verdade, admitir que transei com 40 caras, mesmo que, na maioria das vezes, tenha sido legal… bom, isso me deixa triste.”

Triste é o fato de que ela se julga por isso – que ela veja cada novo encontro sexual como uma lasca em sua inocência, outro passo para longe das fantasias do utópico príncipe encantado no qual ela acreditou quando era criança.

Foto publicitária do programa de TV Threesome.

Louise, por outro lado, não tem problemas em me dizer com quantos caras já transou. “Cerca de 20”, ela informa casualmente. Ela tem 27 anos, acabou recentemente um longo namoro e está entrando no que concordamos ser sua fase “YOLO”. Só que ela descobriu que nem todo mundo curtiu seu despertar sexual: “Percebi que minhas amigas não conseguem suportar uma mulher falando o quanto está feliz, quão divertido é sair com um monte de caras. Eu costumava contar tudo para minhas amigas, mas agora elas dizem coisas como ‘Quando você planeja arranjar um namorado?’ ou ‘Você não deveria ter mais cuidado com sua reputação?'”.

Acho que esse é o drama com o sexo. Você nunca pode falar sobre isso fora de contexto; assim que você começa a comentar sobre sua vida sexual, a única coisa em que as pessoas conseguem pensar é na vida sexual delas – suas próprias inseguranças, suas próprias dúvidas. Existe um lugar no mundo onde as mulheres podem falar sobre sexo sem julgamentos? Sei lá, o consultório do ginecologista, por exemplo? Sugiro isso a Émilie. Ela ri. “Quando eu tinha 17 anos, minha ginecologista perguntou quantos parceiros eu já tinha tido. Eu disse quatro. ‘Como você acha que vai ser respeitada se não respeita a si mesma?’, ela me disse.”

Minha ginecologista é o contrário. Ela tem nome de flor e um rosto meio maternal. Confio nela. Ainda assim, menti sobre o número de pessoas com quem tinha transado quando fui buscar minha pílula pela primeira vez. “Que pena”, ela afirmou quando confessei. “Pessoas que começam a vida sexual cedo ou têm muitos parceiros têm mais chance de pegar HPV; logo, podemos informá-las melhor se esse for o caso”, ela me explicou com tristeza. “Nossas pacientes deviam poder nos dizer tudo sem ter medo de que iremos as julgar.”

Ela quase me fez ter vergonha de ter mentido para ela. Eu destaquei que isso era complicado, que sempre me senti dividida entre o desejo de ser livre e a pressão da sociedade – ser assertiva, mas não muito. “Bom”, ela começou, “não gosto de julgar…” (Na minha experiência, todo mundo que começa uma frase com “Não gosto de julgar” vai fazer exatamente o contrário; assim, me preparei para a próxima frase.) “Não gosto de julgar”, ela continuou, “mas já conheci muitas mulheres jovens como você. Quando têm 27 ou 28 anos, elas querem se divertir e ser livres; no entanto, aos 35, elas vêm para cá chorando para fazer fertilização in vitro e se perguntam por que não acordaram e tentaram uma vida séria antes. A vida passa rapidamente.” Tirei meu avental, peguei meu cartão do plano de saúde e fui embora.

“Meu namorado tem certeza de que minha vagina foi prejudicada pela quantidade de caras com quem transei.”

Ainda assim, isso não responde à pergunta aqui: por que mentimos sobre o número de pessoas com quem transamos? Imaginei que deveria perguntar isso para um cara.

Antoine tem 29 anos e trabalha como diretor de criação. Nos conhecemos numa festa, bebendo vinho rosé morno em copos de plástico. Quando ouviu que eu estava escrevendo esta matéria, ele entrou em contato comigo. “Vou te dizer o que acho”, ele declarou. Ele gosta quando as garotas não são “fáceis logo de cara. Gosto de saber que a garota está me dando algo especial quando concorda em transar comigo – isso me dá mais valor. Se ela dormiu com Paris inteira, me sinto idiota. Transar com ela não me faz sentir bem comigo mesmo. Não tenho orgulho disso, mas é assim que as coisas são”.

Infelizmente, há muitos Antoines por aí. Valentine conheceu um desses através de um amigo de um amigo. Ela estava na casa dele uma noite: depois de alguns drinques, começou a falar de sua vida sexual. Ele imediatamente perdeu o interesse nela, dizendo mais tarde para seu amigo que não sabia “se ela era uma garota séria ou se só queria chupar paus em festas”. Como se uma pessoa não pudesse ser as duas coisas ao mesmo tempo.

Claro, nem todos os homens são assim. E muitos deles precisam lidar com suas próprias dúvidas e códigos sociais que ditam suas vidas. Mathilda acabou de se mudar para a casa do namorado. Eles se amam, embora o assunto sobre a quantidade de caras com os quais ela transou sempre volte. “Mesmo os caras que dizem que adoram mulheres liberadas no começo vão acabar te reprovando [depois]”, ela suspira.

Ela se recusa a dar o número para o namorado. “Ele tem certeza de que minha boceta foi prejudicada pela quantidade de caras com quem transei. Ele tem essa crença ridícula de que, quanto maior o número de caras com quem uma mulher transou, maior é sua vagina”, ela criticou. “Meu namorado não é um babaca, ele odeia pensar assim, só que é algo mais forte que ele.”

<p>Enquanto algumas mulheres gostam de contar vantagens, outras menosprezam a quantidade de parceiros por medo de julgamentos</p>

Para outros, o medo está em ser capaz de dar prazer sexual a uma mulher com experiência. Benoît, um barman, admite colocar muita pressão sobre si mesmo: “Estou sempre estressado na primeira vez que transo com uma garota”, ele confessa. “‘E se eu não conseguir ter uma ereção? E se não conseguir dar prazer a ela? E se eu for ruim de cama?’ são perguntas que sempre passam pela minha cabeça. É ainda pior se a garota parece gostar de sexo. É excitante e assustador ao mesmo tempo.”

A solução dele? “Me tornei especialista em sexo oral. Sério, sou muito atencioso”, ele diz. “Fico lá pelo tempo que for necessário. Pergunto do que a garota gosta, insisto, quero que ela me guie. Quando tenho certeza de que ela está gostando, a pressão some. Quando ela começa a se contorcer, agarrar os lençóis, gemer, não ligo mais para os outros caras. Ela pode ter transado com o Rocco ontem; hoje, me sinto o dono do mundo.”

Taí um cara que entende.

Fonte: VICE

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